4 de nov. de 2007

Rir, é o melhor remédio?

Augusto fora enviado para trazer alegrias. Descendentes de japoneses, o casal recém unido beirava a falência e nove meses se completariam dentro de uma semana. Sabiam que ia chegar, lamentavam e em seguida contentavam-se. Sabiam que iam se descabelar, mas marejavam os olhos só de imaginar. Criavam, nos doces sonhos de café da manhã, imagens alegres de simples momentos em tardes ensolaradas, porém, não era motivo para sorrir. Sorrisos não cabem à realidade e sim o comprometimento e a disciplina, só eles trazem progresso. Seguiam este pensamento e os rostos mantinham-se frios.

Três dias antes do previsto, a fantasia respirou e esgoelou nas mãos do doutor médico. Augusto viu a luz, foi banhado, carregado de volta à sala onde havia conhecido enchido os pulmões pela primeira vez e entregue nos braços da máquina que o produzira. No seu posto de submissão, agarrou a criança depositando nela suas esperanças. Embora os olhos lacrimejassem e dessem vazão às emoções, ela não sorria. O recém-nascido fitando-a esticou os lábios exibindo toda a úmida vermelhidão de sua boca.

Passaram-se uns poucos anos na pequena casa de cor amarela como milho verde e, no seu decorrer, desse gesto fez-se um habito. Não só ele cresceu, como cresceu nele uma arcada dentária exemplar, esta uma que ele exibia orgulhosamente. Augusto, aos poucos, começou a gostar de mais, a querer mais e mais, acabou qual viciado no riso e tudo transparecia por ele, o nervosismo, a mentira, a alegria, seus sonhos e ilusões de criança. Os pais e novos irmãos também exercitavam um pouco os músculos do rosto, mostravam as presas, mas sempre com cautela. Viam no pequenino a vontade de ser feliz, e ouviam dele, em palavras de gente jovem, que a felicidade por si podia ser inatingível, mas que enquanto perdurasse um sorriso poder-se-ia mantê-la consigo.

Por não ser ele capaz de evitar a passagem do tempo, foi obrigado a desfazer-se da inocência infantil. Riu forte quando a voz engrossou, riu de susto ao ver tanto pêlo crescer, riu bem rápido depois do primeiro beijo, riu de satisfeito do primeiro amor, riu das fotos da formatura e caiu de rir quando concluiu a faculdade. Logo pôde rir do primeiro emprego, riu do tombo do chefe e riu encarando o olho da rua.

Já homem barbado, ria tanto que o davam por louco, era até chamado de “querriu”. Surgiu isso como surge nome de bandido. Ele caminhava à tardezinha e viu a garota gordinha atropelar a pedra e voar da bicicleta – da calçada para o meio da rua. Só ele poderia ter ajudado, contudo, Augusto não agüentou a gargalhada. E a pequena? Foi atropelada. As testemunhas fizeram rodar a história como fofoca global, rapidamente, ao ser mencionado, por não lembrarem o nome diziam sem cerimônias: “o que riu”.

A família havia cansado de ser mal vista. Não mais podiam. Levaram-no para um manicômio com tratamentos alternativos. Os médicos, em dias, cansaram de tanto riso sem motivo e, num surto, mandaram que lhe fizesse, cócegas. Caíram luas e subiram sóis, Augusto só ria. Riu tanto que desmaiou sem ar. Não morreu, entretanto, custou a acordar e quando o fez não sabia (nem conseguia) mais rir.

Ele não entendia como, após anos repetindo mecanicamente, não podia mais copiar um movimento sequer parecido. Não conhecia mais o processo do riso, também não via mais graça. Só enxergava a desgraça, conhecera os medos, a ansiedade. Perdeu toda sua coragem. Sentia-se nada além do normal. Passou a ver o mundo cheio de aflições e agonias, imitando qualquer mortal.

Cultivou dentro de si as dores que, outrora, não tinha. Doenças que nem conhecia. Morava nessa época numa casa afastada de tudo, uma que a família arrematou num leilão. Ele era tratado pra manter a vida. Enfermeira de dia, calmante de noite. Marmita prescrita e agendada pelo nutricionista. Nessa rotina cansada, os cabelos entediados soltavam as cores. Isso bastou para todos quererem parar: os pulmões não queriam mais ar, o coração ficou preguiçoso, o estomago devolvia tudo e os rins não filtravam nada.

O corpo todo queria parar, só que Augusto ainda podia sentir, ouvir, degustar, farejar, ver. A dores aumentavam um pouco por dia. Os remédios não conseguiam trabalhar. Sofria sem voz para gritar, sem poder se mover na cama d’água. Se acordado: fitava o horizonte da janela enferrujada, se dopado: delirava silenciosamente. Implorava sempre que pudesse morrer, mas o tempo ainda queria vê-lo desbotar um pouco mais.

Durante 52 salários murchos a enfermeira o viu com a mesma expressão, até aquela manhã gelada. Ao entrar no quarto - carregando a bandeja azul marinho com um prato vermelho sob o pão francês, duas espátulas, uma porção de margarina diet, uma gelatina light, um suco de uva (era quarta) e um copo de plástico cheio de remédios, seu desjejum – ela viu que algo estava errado, ele não a questionou irritado com a fome, ele singelamente mantinha um rosto plácido e rijo. Enquanto brilharam as estrelas no escuro, Augusto usufruiu do alivio de cada uma de suas aflições extinguindo-se e quando todas sumiram, sem esforço seu rosto se abriu e, pela última vez, ele sorriu.

4 de set. de 2007

Piruás



Nos dias de hoje, com tanta tecnologia, costuma-se apenas abrir um saquinho e apertar um botão que 3 ou 4 minutos depois temos um monte de pipoca. Entretanto, antigamente, quando o Lula ainda era defensor do povo e o chacrinha fazia sucesso, para se fazer pipoca era necessário colocar o milho e o óleo em uma panela, tampar, levar ao fogo, ficar atento para que não queimasse e só depois de tudo isso é que se podia comer.

Embora seja mais trabalhoso, prefiro ainda a versão mais antiga. Fica mais saboroso e o sabor pode ser escolhido na hora e não na hora que se vai comprar (também, talvez, porque meu microondas é pequeno demais e o pacote não cabe nele direito). Aonde quero chegar? Vocês ainda se perguntam? Pois eu explico, realmente esse lugar não para falar das minhas dificuldades.. então, quando se usa a maneira mais ancestral, sobram mais milhos sem rebentar e a estes chamam “piruás”

Ainda não entendeu? É o seguinte: Não consigo me decidir se é bom, ou não, ser um piruá. Sei que parece estranho, mas refletindo, vi que isso pode significar duas coisas:

A primeira é ser um fracassado, um milho que não atingiu seu objetivo. Alguém deslocado que pertence a uma minoria, perdido entre todos que fizeram a sua parte. Que teve as mesmas oportunidades e não alcançou nada. Que esteve no calor da batalha e se absteve de tentar, um medroso.

A segunda, porém, representa um vencedor. Uma pessoa que agüentou a pressão interna e se fez forte, que não explodiu. A mesma minoria, mas que difere por não se deixar levar pelos outros. Destaca-se por ter vencido os desafios sem perder o controle, conseguiu ser individual, ser ele próprio. Que passou e venceu a prova de fogo.

Ou ainda, seria possível ser uma pipoca, deliciosa, mas sem graça, sem brilho, sem destaque, enfim sem personalidade... Piruá, ser ou não ser? Eis a questão.

30 de jul. de 2007

Manipulação



Manipulação,
É para alguns uma salvação,
Para outros, apenas maldição
E ainda para mim causa irritação.

Sou boneco não!
Não quero condução.
Dá-me esta libertação,
Tira-me do seu cordão!

Basta de escravidão.
Cansado da sua podridão.
Cadê o direito de opção?
Ainda terei opinião.

Quero aprender a andar,
Sozinho poder caminhar.
Saber parar, e olhar...
Decidir do que gostar.

Entender com quem me unir,
Sozinho saber sentir,
Compartilhar e rir.
Nunca parar de sorrir...

23 de mai. de 2007

Sofisma #2

Tempo é dinheiro.
Dinheiro traz poder.
Tempo traz poder.
O relógio marca o tempo.
Ele marca o poder.
Meu relógio não pára de girar...

Sou muito poderoso

15 de mai. de 2007

Sofisma #1

[O primeiro de alguns sofismas que serão publicados. sofisma = a partir de premissas verdadeiras conclui-se uma falsa]

deus é amor.
O amor é cego.
deus é cego.
A justiça eh cega.
deus é justiça.
deus é brasileiro.
A justiça brasileira é corrupta.
deus é corrupto.