Augusto fora enviado para trazer alegrias. Descendentes de japoneses, o casal recém unido beirava a falência e nove meses se completariam dentro de uma semana. Sabiam que ia chegar, lamentavam e em seguida contentavam-se. Sabiam que iam se descabelar, mas marejavam os olhos só de imaginar. Criavam, nos doces sonhos de café da manhã, imagens alegres de simples momentos em tardes ensolaradas, porém, não era motivo para sorrir. Sorrisos não cabem à realidade e sim o comprometimento e a disciplina, só eles trazem progresso. Seguiam este pensamento e os rostos mantinham-se frios.
Três dias antes do previsto, a fantasia respirou e esgoelou nas mãos do doutor médico. Augusto viu a luz, foi banhado, carregado de volta à sala onde havia conhecido enchido os pulmões pela primeira vez e entregue nos braços da máquina que o produzira. No seu posto de submissão, agarrou a criança depositando nela suas esperanças. Embora os olhos lacrimejassem e dessem vazão às emoções, ela não sorria. O recém-nascido fitando-a esticou os lábios exibindo toda a úmida vermelhidão de sua boca.
Passaram-se uns poucos anos na pequena casa de cor amarela como milho verde e, no seu decorrer, desse gesto fez-se um habito. Não só ele cresceu, como cresceu nele uma arcada dentária exemplar, esta uma que ele exibia orgulhosamente. Augusto, aos poucos, começou a gostar de mais, a querer mais e mais, acabou qual viciado no riso e tudo transparecia por ele, o nervosismo, a mentira, a alegria, seus sonhos e ilusões de criança. Os pais e novos irmãos também exercitavam um pouco os músculos do rosto, mostravam as presas, mas sempre com cautela. Viam no pequenino a vontade de ser feliz, e ouviam dele, em palavras de gente jovem, que a felicidade por si podia ser inatingível, mas que enquanto perdurasse um sorriso poder-se-ia mantê-la consigo.
Por não ser ele capaz de evitar a passagem do tempo, foi obrigado a desfazer-se da inocência infantil. Riu forte quando a voz engrossou, riu de susto ao ver tanto pêlo crescer, riu bem rápido depois do primeiro beijo, riu de satisfeito do primeiro amor, riu das fotos da formatura e caiu de rir quando concluiu a faculdade. Logo pôde rir do primeiro emprego, riu do tombo do chefe e riu encarando o olho da rua.
Já homem barbado, ria tanto que o davam por louco, era até chamado de “querriu”. Surgiu isso como surge nome de bandido. Ele caminhava à tardezinha e viu a garota gordinha atropelar a pedra e voar da bicicleta – da calçada para o meio da rua. Só ele poderia ter ajudado, contudo, Augusto não agüentou a gargalhada. E a pequena? Foi atropelada. As testemunhas fizeram rodar a história como fofoca global, rapidamente, ao ser mencionado, por não lembrarem o nome diziam sem cerimônias: “o que riu”.
A família havia cansado de ser mal vista. Não mais podiam. Levaram-no para um manicômio com tratamentos alternativos. Os médicos, em dias, cansaram de tanto riso sem motivo e, num surto, mandaram que lhe fizesse, cócegas. Caíram luas e subiram sóis, Augusto só ria. Riu tanto que desmaiou sem ar. Não morreu, entretanto, custou a acordar e quando o fez não sabia (nem conseguia) mais rir.
Ele não entendia como, após anos repetindo mecanicamente, não podia mais copiar um movimento sequer parecido. Não conhecia mais o processo do riso, também não via mais graça. Só enxergava a desgraça, conhecera os medos, a ansiedade. Perdeu toda sua coragem. Sentia-se nada além do normal. Passou a ver o mundo cheio de aflições e agonias, imitando qualquer mortal.
Cultivou dentro de si as dores que, outrora, não tinha. Doenças que nem conhecia. Morava nessa época numa casa afastada de tudo, uma que a família arrematou num leilão. Ele era tratado pra manter a vida. Enfermeira de dia, calmante de noite. Marmita prescrita e agendada pelo nutricionista. Nessa rotina cansada, os cabelos entediados soltavam as cores. Isso bastou para todos quererem parar: os pulmões não queriam mais ar, o coração ficou preguiçoso, o estomago devolvia tudo e os rins não filtravam nada.
O corpo todo queria parar, só que Augusto ainda podia sentir, ouvir, degustar, farejar, ver. A dores aumentavam um pouco por dia. Os remédios não conseguiam trabalhar. Sofria sem voz para gritar, sem poder se mover na cama d’água. Se acordado: fitava o horizonte da janela enferrujada, se dopado: delirava silenciosamente. Implorava sempre que pudesse morrer, mas o tempo ainda queria vê-lo desbotar um pouco mais.

